É como se eu tivesse avançando na escuridão, o silêncio ecoa nos meus ouvidos e de repente estou sozinha, completamente desprotegida, perdida em um labirinto ou a beira de um precipício enorme. Uma nuvem negra paira sobre a minha cabeça e o vazio lentamente me engole enquanto o relógio trabalha incansavelmente, meus pensamentos se tornam menos coerentes. Não faz sentido! Há menos de 24 horas sua presença irradiava luz, seu sorriso dava sentido a minha existência e seu abraço aquecia todo meu corpo. O ar era frio e cortante, atravessava minha janela, atingindo meu rosto e eu já não sentia mais a dor, meu coração acelerava cada vez mais e eu pensava que ele ia explodir no meu peito a qualquer momento. Já estava preparada, resignada, ao menos se ele saísse pra fora, a dor sairia junto e isso era o que eu mais desejava no memento. Soltaram-se as mãos e tudo o que eu via eram espirais, na minha frente e atrás, dos dois lados também, não havia nada embaixo ou encima, eram só redemoinhos que ecoavam nada, o vazio se fazia presente e só. Estava só, anestesiada de tanta dor, partida em mil pedaços, passava os braços ao redor do meu próprio corpo tentando evitar que os pedaços de dentro de mim se espalhassem, por quanto tempo estaria assim? O desespero crescia e o medo estampava meu rosto mas não havia pra onde fugir e eu não precisava me esconder, podia imaginar as expressões, podia até enxergar os sorrisos irônicos ao ver meu semblante derrotado, mas isso era o que menos importava, minha ânsia era pelos olhos castanhos envernizados que eu não sabia se veria novamente, pelo menos não com aquela doçura que me encaravam horas antes, meu desespero, pânico se preferir chamar não era pelo silêncio, poderia haver mil vozes ali, eu queria apenas uma, aquela voz suave que parecia com veludo e me acordava todas manhãs. Me vi na beira do abismo, mas que abismo? Não havia nada. Eu precisava me concentrar em algo, precisava fazer alguma coisa pra impedir que aquele silêncio lúgubre me devorasse, de repente uma voz que eu conhecia muito bem e que não era nem parecida com a voz que eu ansiava escutar quebrou o silêncio, num tom calmo, ela repetia: "Ligue pra ela!". A traidora, a culpada, a cruel, a causadora dos meus males, minha emoção. Como ela tinha coragem de me dizer o que fazer? A revolta cresceu dentro do meu peito, não vou ligar, falei baixinho enquanto tentava reorganizar meus pensamentos, a voz ia ficando mais alta gradualmente, até que a insolente bradava num tom severo as mesmas palavras. Eu já estava irritava o bastante, quem ela pensava que era? Uma coisa já estava decidida: eu não iria ligar, pelo menos não essa noite, ia suportar o vazio, o frio, a escuridão e lutaria o quanto fosse preciso contra aquela traidora. A voz parecia mais longe exausta, enfraquecia a medida que o tempo passava, até que se tornou apenas um eco e então sumiu. Meu peito doia tanto que era quase impossível respirar, sentia o sal nos meus lábios das lágrimas que agora saiam como se tivessem se libertado de alguma coisa que as prendiam, minha cabeça ainda estava tonta e eu não sei dizer se era pela dor que eu estava sentindo ou pela confusão que a situação toda havia provocado, apenas sabia que precisava de algo que me distraísse, como se para fugir daqueles cacos espalhados por todo meu corpo que me machucavam tanto. Levou alguns segundos mais até que eu percebesse que ela ainda não havia se dado por vencida, dessa vez sua voz estava calma, num tom zombeteiro, ela disse: "o que você pensa que está fazendo?", eu me assustei e quase automaticamente respondi: "nada!", ela gargalhava, uma risada cruel, fazendo aumentar a dor no meu peito despedaçado, então ela disse: "até quando você vai fazer nada?", eu tentava reorganizar meus pensamentos, aquilo não fazia sentido, eu precisava acordar desse pesadelo, eu tentei me acalmar o máximo que eu pude e falei: "o que você quer que eu faça?", ela suspirou e então se passaram alguns segundos até que ela pudesse responder: "não deixe ela escapar, mostre o quanto você precisa dela", meus olhos estavam incrédulos, eu não podia acreditar que tinha ouvido aquilo, a raiva cresceu dentro de mim e eu não podia mais evitar que ela me tomasse, com a voz cheia de ressentimento eu disse: "não! eu não vou fazer isso, não vou obrigar ninguém a ficar comigo, não preciso que sintam pena de mim", acho que peguei ela de surpresa porque levou algum tempo até que ela respondesse: "imbecil! tente, pelo menos tente!", eu já não sentia mais nada, o ódio me tomava por inteira, estava completamente anestesiada, espumando de tanta raiva, mas eu não podia perder o controle, não agora, eu enchi os meus pulmões de ar e esvaziei, repeti por mais algumas vezes até que eu consegui reunir a calma necessária pra dizer: "eu não vou tentar nada, está tudo acabado se for o caso, eu não quero que ela esteja comigo porque eu preciso, eu quero que ela esteja comigo porque ela se sente bem e se não for assim, tudo bem, eu supero, agora vamos acabar logo com isso, me deixe aqui sozinha e vá embora!", minha voz estava séria, meu tom era firme e então acho que ela se deu por vencida, pelo menos eu estava sozinha novamente. Acho que gastei mais algumas horas tentando achar algo que me distraísse, que amenizasse aquela dor que eu estava sentindo, todas tentativas eram inúteis, eu precisava fugir daquilo tudo e então resolvi me entregar ao cansaço que eu sentia, passei os braços em volta das minhas pernas prensando meu peito nas minhas coxas, tentando evitar que ele se partisse de maneira irreversível e então deixei que minha cabeça descansasse sobre os joelhos e o sono me alcançou em seguida. Talvez eu não quisesse mais acordar, talvez eu precisasse, eu não queria pensar nisso, sabia que estava sonhando, mas ela estava ali, linda como sempre, os cabelos loiros apontando pra todas as direções, brilhava como o sol, sua pele clara levemente bronzeada e o sorriso perfeito, o mais lindo que eu já havia visto, seus olhos eram doces e eu podia ver algo mais atrás deles, como se estivesse me escondendo algo, mas eu não tinha muito tempo pra pensar nisso, eu precisava sentir o toque das suas mãos, precisava ouvir sua voz, eu dei um passo em sua direção e ela me encarou com os olhos cheios de zombaria e então como se percebesse que eu pretendia alcançá-la, ela se virou na direção oposta e corria em direção ao nada, sem pensar duas vezes como num ímpeto eu fui atrás, sentia o vento passando por mim e eu ouvia sua gargalhada divertida, achando graça da situação, a sensação de paz me invadia e eu não queria acordar, poderia passar o resto dos meus dias assim, correndo atrás dela, só não podia suportar o vazio novamente. [...]

incrivel como eu me identifico com os seus textos. muito.
ResponderExcluir