quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

O maior dos meus casos

Debruçada na janela, fitava o horizonte e segurava firme o celular, na expectativa de que I'm alive quebrasse o silêncio que invadia o quarto. As dúvidas cresciam de maneira inevitável e a incerteza já não me deixava dormir, não me deixava comer, não me deixava sorrir. Tinha vontade de sair correndo, fugir daquele mundo de ilusões, na verdade só queria sair desse corpo que não me pertencia mais, desde a chegada de Leona, mas me faltava coragem para lhe encarar e dizer que eu não queria mais, que aquilo não passava de uma loucura e que seguiria o meu caminho, dali em diante, sozinha e de cabeça erguida, na verdade não sei se "coragem" é a palavra exata, talvez "certeza" se encaixe melhor no contexto. Lá fora, tudo estava cinza, chovia de tal maneira que eu já não esperava que o sol viesse me acordar pelas frestas da janela. De repente voltava a passar aquele filme na minha cabeça, de maneira lenta e dolorosa e eu não tinha mais nada a fazer, se não remoer aquelas lembranças e deixar a saudade me corroer. Revivia tudo, ouvia cada palavra, admirava cada gesto. Lembrava até do tempo que não existia nada, nem um simples e insignificante "oi", quando Leona não passava de Lúcia e era apenas uma utopia. Cinco anos se passaram em câmera lenta na minha cabeça e agora eu assistia o início do fim, podia até sentir o friozinho gostoso que fazia naquela noite em que de maneira inesperada, tocou o telefone. Do outro lado da linha era Lúcia, que daquele momento em diante se transformava em Leona. Uma porta se escancarava a minha frente e eu entrava sem pensar em mais nada. Era tudo inesperado, novo, mágico, assustador. Eu nunca ousei sequer em pensar nisso tudo, tampouco desejar, mas aconteceu. Agora Lúcia sabia que eu existia e me permitia conhecer Leona. As ideias se embaralhavam e a cada nova cena, a incerteza aumentava. Assistia agora, o primeiro encontro, ouvia todas aquelas palavras novamente e podia até sentir o frio na barriga e o calor que fazia naquela tarde ensolarada de outubro. O primeiro beijo, desajeitado e roubado dentro do carro mesmo, numa rua qualquer, num bairro qualquer, numa tarde qualquer. Já não era capaz de conter as lágrimas enquanto assistia aquilo tudo, sem pronunciar uma palavra, sem desviar a atenção por um segundo que fosse, estava ali, vidrada, os olhos fixos em alguma coisa que não sei dizer agora o que era, já que eu só conseguia prestar atenção nas cenas que a minha cabeça projetava. Leona era a melhor coisa que já havia me acontecido, sem dúvidas, mas ao mesmo tempo conseguia ser a pior. O calor que me invadia só de pronunciar o nome dela era incrível, muito mais que a maneira que os meus olhos brilhavam quando falava nela e mais até, do que aquele sorriso bobo que aparecia de maneira espantosa no meu rosto toda vez que ela dava um sinal. Lúcia era Leona, era o meu amor platônico, o meu amor eros e por fim, o meu amor ágape. Sendo assim, Leona era Lúcia e ela era todas elas juntas num só ser. Agora as cenas passavam mais rápido, assistia atenta, uma noite daquelas em que o relógio me castigava trabalhando de maneira acelerada, as horas voavam, enquanto Leona dormia sobre o meu braço, de repente o sol invadia o quarto e já era dia, hora de dar adeus aquela noite que no meu íntimo queria que fosse eterna. Novamente sentia aqueles beijos, abria os olhos e aquele sorriso iluminava o meu dia, brilhava e me aquecia mais que o sol, mas eu sabia que era hora de ir embora, de dar tchau, de passar o resto do dia revivendo aqueles momentos e esperando mais uma noite daquelas. Podia sentir a tristeza batendo de frente com a felicidade de poder desfrutar daquilo tudo. A agonia era constante, a dúvida atormentava, a incerteza já estava entranhada em mim e eu permanecia ali, ciente de que aquilo não era certo. Chega a ser ironia falar que não é certo quando se trata de amor usava isso como argumento e persistia nisso. Um mar de ilusões no qual eu mergulhava, certa de que poderia naufragar. Mas não tinha como fugir, por mais que eu quisesse, eu não poderia, minha razão a essa altura já havia sido traída pela emoção e meus princípios já havia me despido deles. E pra ser honesta, eu não queria fugir, eu precisava. Procurava defeitos nela, como se pra achar alguma coisa que me impulsionasse, que desse coragem pra ir embora, mas era inútil. Nada me fazia gostar menos, ou querer me afastar. Amava até o pior defeito de Leona, amava desesperadamente, amava de forma incondicional. O filme continuava e eu assistia aqueles beijos intermináveis, podia sentir seu cheiro, seu corpo frio sobre o meu corpo quente e o gosto do seu beijo, que eu jamais provei igual. Me envolvia e me deixava enlouquecer, como se aquilo fosse a minha salvação. E era, de fato, era quando eu podia descansar um pouco da agonia que a incerteza daquilo tudo me causava. Mais uma vez o sol me desapontava, vinha terminar com a minha paz, me obrigava a ir embora e trazia a incerteza de volta. Era sempre assim, já estava acostumada, seguia a rotina, mas ao contrário de tudo que veio antes de Leona, aquilo não me cansava, não me enjoava. Outra noite chegava e com ela o desejo de estar lá, esperava ansiosamente que ela me ligasse e quando não acontecia, inventava uma desculpa, um assunto qualquer e ligava pra ela. Não conseguia ficar longe, não suportava a abstinência, precisava saber dela, precisava proteger ela. Eu tentava ir embora de uma vez por todas, mas sabia que era uma tentativa inútil, sabia que enquanto ela quisesse, eu estaria ali, inteira pra ela. 

2 comentários:

  1. Quando um coração ama de verdade,não se pode dizer adeus!!!

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  2. fantástico esse texto me fez lembrar de uma frase do Caio Fernando de Abreu ''Nada em mim foi covarde, nem mesmo as desistências: desistir, ainda que não pareça, foi meu grande gesto de coragem.'' e como é difícil

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