sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Engano

   Cai intensa a chuva lá fora, e aqui dentro nada além dos restos com que insistia viver, o vazio de todos os enganos admitidos e nada mais. A tempestade só faz aumentar, e cada funesta certeza se firma, como são tristes os equívocos, talvez sofra mais com qualquer esclarecimento, mas viver às meias, confesso, talvez nem possa chamar de vida tudo por que passei ao lado de quem só queria parte de mim: minhas loucuras, mas que jamais aceitou minhas verdades, alguém que talvez se sentisse à vontade com meus sorrisos mas que nunca toleraria uma lágrima, alguém que, enfim, amava em mim o que lhe fazia bem, sem nunca se preocupar com o que se escondia por trás de olhares um pouco distantes. Amor? Talvez nunca tenha descoberto do que realmente se trata. A chuva traz um certo alívio, não preciso de estardalhaços para sentir o amargo do ódio que, inevitavelmente, me toma. Faço da chuva a minha voz, e ela se encarrega de descarregar cada gota de amargura e os gritos, bem, não sei como explicá-los, descarrego, saudade, raiva. O amor tem mesmo façanhas inexplicáveis. Vou até a cozinha, a chuva parece ter se acalmado, pego um copo d’água pra tirar da garganta essa angústia, mãos trêmulas, lábios sedentos. “O que é que ela pensa que está fazendo comigo?” Mais surpresas, parece que agora resolvi falar sozinha, não me reconheço, e a culpa não pode ser de mais ninguém, senão de quem me faz sentir esse ódio, sim, ódio desse sentimento, o copo vai ao chão num impulso, eu realmente só consigo ficar visivelmente confusa, cacos espalhados pela cozinha, pés descalços e um misto de nostalgia e ódio anestesiante. Imbecil, sofria por algo que não merecia nenhuma dessas lágrimas, sinceramente não sei se posso chamar de sofrimento, talvez decepção, engano parece cair bem. Criava sentimentos e passava a acreditar neles como forma de continuar a viver, precisava de cada um desses enganos, do amor que criei e cultivei por alguém impossível, primeiro por que esse alguém jamais me amaria, por que talvez, de fato, nem soubesse o que é amor. Vivia de mentiras, precisava que algo me impulsionasse, como se para dar rumo ao destino. Nunca daria certo, não passava de uma grande mentira, sinto muito, caíram as mascaras, e de agora em diante tudo seria tratado como realmente merecia. As palavras que eu insistia em guardar dentro de mim seriam ditas e talvez até pudesse dar vazão aos gritos que ecoavam na minha cabeça e deixaria então, a raiva sair e com ela esqueceria os enganos e abandonaria esse triângulo sórdido, ou seria losângo? Ironias à parte, agora posso voltar a ser eu. [...]

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